as queixas de um coração partido e o papel da mulher no relacionamento monogâmico
CDUPS #1: Frank Sinatra e Elvis Presley
Tempo estimado de leitura: 6 minutos.
Olá, querido efêmero, tudo bem por aí?
Aqui está a primeira newsletter do meu ambicioso projeto pessoal O Clube do Disco de Uma Pessoa Só (CDUPS). Está perdido? Só clicar no post abaixo para entender o que está acontecendo:
Publiquei o projeto em março, mas só comecei a pôr em prática no final de outubro. Imediatismo não é nosso forte! Na verdade, a monografia e os estudos para concurso ocuparam meus pensamentos e sugaram minhas energias a ponto de não ter paciência para as minhas patacoadas.
Entretanto, para a minha alegria, finalmente o trem vai partir. Portanto, escolha seu assento, caro leitor, e aproveite a longa e empolgante jornada na qual me meti!


Disco 1: In the Wee Small Hours (1955), do Frank Sinatra
Duração do disco: aprox. 50 minutos, 16 músicas. Estados Unidos.
Sinceramente, acho ousado e arriscado iniciar uma lista de álbuns essenciais com um álbum tão melancólico, pois pode fazer muita gente desistir da jornada logo no início ou ignorar a obra nos primeiros acordes.
No início dos anos 50, Frank Sinatra estava acabado — incapaz de conseguir um contrato regular com uma casa noturna, quanto mais com uma gravadora. Seu salvador chegou bem a tempo. Alan Livingston, vice-presidente de A&R (artist and repertoir) da Capital Records e fã de Sinatra, o contratou por sete anos em 14 de março de 1953, contrariando o conselho de seus colegas… [O álbum] foi lançado pouco depois de o romance entre Sinatra e Ava Gardner ter terminado, e esse rompimento talvez tenha tornado este o melhor álbum de todos os tempos sobre o tema da separação. (p. 22)
É sofrência que você quer? Então ouça esse disco! In the Wee Small Hours of the Morning, a faixa introdutória, prepara o ouvinte para o que ele vai ouvir nas próximas 15 faixas: as confissões de um coração partido devido ao término de um relacionamento. A melodia triste acompanha seu sofrimento até o fim.
O disco me agrada porque há uma história sendo contada. A faixa 2, por exemplo, Mood Indigo, mostra a profundidade da tristeza do personagem, após se dar conta de que a pessoa amada não voltará. A música seguinte, Glad To Be Unhappy, mostra a ironia e contradição por trás do “sofrer por amor”, tendo em vista que, muitas vezes, o amor é representado como a melhor coisa que acontece na vida de alguém, vindo acompanhada de felicidade. E a faixa 4, I Get Along Without You Very Well, é uma tentativa do personagem se convencer de que consegue prosseguir sem a pessoa amada, constatando depois que não é tão simples quanto parece. A coerência narrativa continua até o final do disco. Portanto, se você pretende ouvi-lo, recomendo não ouvir no aleatório.
Uma curiosidade de bastidor: quando o disco terminou de tocar, a música recomendada pelo algoritmo foi That’s Life, também do Sinatra. Meio que é isso mesmo, no final das contas. É como diz a canção do Nelson Ned: “Mas tudo passa, tudo passará”.
Faixas favoritas:
In the Wee Small Hours of the Morning. Oh, música triste! Abrir o álbum com uma faixa tão pra baixo é arriscado, porém, ela é tão linda que dá vontade de continuar o disco.
Deep In A Dream. Essa é a minha composição favorita porque consigo imaginar a cena descrita na letra.
Can’t We Be Friends?. Um dos poucos momentos que saímos das emoções e vamos para uma cena que, provavelmente, aconteceu. A desilusão amorosa aparece aqui, uma vez que o narrador jurou ter encontrado a mulher dos seus sonhos, mas o relacionamento não deu certo. Imaginei ele com um copo de uísque me contando o que aconteceu. Quando a pergunta aparece, sempre dou uma risadinha.
Segue abaixo a primeira música do álbum para você sentir a energia alto astral sóquenão do disco:
Disco 2: Elvis Presley (1956), de Elvis Presley
Duração do disco: aprox. 30 minutos, 12 músicas. Estados Unidos.
De antemão, já digo que foi uma experiência engraçada dar play nesse disco após passar 50 minutos ouvindo o Sinatra sofrendo a perda de um grande amor. Foi um baita respiro, pois o álbum do Elvis começa enérgico!
Não é nenhuma jóia rara. De fato, quando tocado para os ouvintes do século 21, habituado à arte e à técnica da produção de um bom álbum, o primeiro LP de Elvis Presley mostra-se frustante e inconsistente… No entanto, o álbum tem magia, e muita; revoluções já aconteceram por menos do que isso. (p. 24)
A famosa Blue Suede Shoes introduz o ouvinte à energia das 11 faixas seguintes: muita dança, empoderamento masculino, dependência emocional ou papel da mulher no relacionamento monogâmico.
A primeira música traz o Elvis afirmando que façam o que bem entenderem com ele, mas, pelamordedeus, não pisem nos seus sapatos de camurça azul! Imagino ser um calçado caro, muito difícil de manter limpo e nas condições de fábrica. Todo cuidado é pouco.
Mesmo um homem hétero, aparentemente independente, precisa de apoio, em todos os sentidos. Isso fica evidente em I’m Counting on You, a segunda faixa do disco. Mas, a melodia romântica pode enganar o ouvinte desatento! O que temos aqui nada mais é o que se espera de uma mulher no relacionamento hétero e monogâmico: independente do que ele fizer, a gentileza e o amor dela serão a sabedoria e o guia que ele precisa. Por isso, conta com ela. Essa lógica continua na música seguinte, I Got a Woman, quando, literalmente, Elvis canta “Ela sabe que o lugar de uma mulher é ali, agora, em sua casa”, após citar exemplos do que ela faz para ele. Elvis, meu anjo, tudo tem limites!
Em seguida o empoderamento masculino volta com tudo! One-Sided Love Affair mostra um Elvis doidinho por um relacionamento, desde que seja correspondido. Justo! Essa autoconfiança aparece, mais uma vez, em Just Because. No entanto, desaparece em I’m Gonna Sit Right Down and Cry (Over You) e I’ll Never Let You Go, quando a pessoa amada ameaça ir embora porque ele fez besteira (provavelmente). O Elvis fica de joelhos e implora para ela ficar. Afinal, ele vai ser melhor amanhã.
Apesar de algumas letras apresentarem alerta de bandeira amarela, é um disco delicinha para dançar com alguém ou sozinho no quarto, às 22 horas de uma terça-feira de outubro (não que eu tenha feito isso).
Faixas favoritas:
I Love You because. Minha música favorita do disco. Acho a frase “eu te amo porque você é você” a declaração de amor mais singela do mundo! É muito especial encontrar pessoas que te amam com todos os seus medos, inseguranças, sonhos e paixões.
Trying to Get to You. O eu-lírico recebeu uma carta de amor e isso o fez ir atrás da remetente, atravessando montanhas e vales até a encontrar. Quem quer dá um jeito, viu?
Money Honey. A música de encerramento do disco é muito divertida! Tudo começa com o personagem sendo cobrado pelo aluguel. Desesperado, ele liga para a pessoa amada em busca de apoio emocional — e financeiro. A querida disse que o relacionamento acabou. Ele pergunta o motivo e ela responde: “dinheiro, querido!”. Nessa confusão, o personagem aprende que o dinheiro é um fator relevante, e até determinante, nas relações sociais — sobretudo afetivas. Atemporal.
Abaixo, uma das minhas músicas favoritas do álbum:
Coincidentemente, o amor se apresenta nos dois discos, em contextos diferentes. Ouvir um seguido do outro foi uma experiência bem divertida — dei um intervalo de 2 dias, para ser mais exata.
É como se, num dia, acompanhasse o Sinatra e as queixas do seu coração, vendo-o chorar as pitangas agarrado com o cigarro numa mão e um copo de uísque na outra. No dia seguinte, estou em uma danceteria porque apareceu um cara metido a bonitão que tá colocando todo mundo pra dançar e eu precisava saber quem é. Até que ele é simpático!
As duas experiências valem a pena.
Por hoje é isso, efêmero leitor. Te vejo na próxima newsletter. Até lá! 🌷
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